sexta-feira, 10 de julho de 2009

A aura da divisão


Um pingente é encontrado semimorto em uma artéria da Central do Brasil. Ele é Espírito da Luz (Grande Otelo). Mora nos morros da Zona Norte da cidade maravilhosa. Compõe sambas de ares bucólicos, mas também entende a malandragem. Antonio Candido diria se tratar de antimolde das peripécias de Leonardo Pataca. A dialética da malandragem em Espírito da Luz é, porém, doce, como em um dos pólos da canção de Chico Buarque. Os sambas compostos e cantados – com caixinha de fósforo à mão – por Espírito são, na verdade, obras do grande Zé Keti, compositor célebre por diagnosticar o Rio Esquecido (João Antônio afirmava: “O Rio esquecido, simplesmente 75% da população”, o “Rio do bêbado com alma de bandido tímido: Afonso Henriques de Lima Barreto”). Espírito da Luz é um pouco Lima, é um pouco Zé Keti, é um pouco o próprio samba, o próprio “inferno social”, a própria Zona Norte “em construção, mas já ruína”. Ângela Maria interpreta Ângela Maria, Jece Valadão interpreta um “malandro com retrato na coluna social”, Paulo Goulart personifica os detentores da indústria – nascente – do disco. Espírito vende seus sambas para arcar com sua sobrevivência. Mas também sonha. Dependurado nos trens para os subúrbios. O diretor Nelson Pereira dos Santos “comete” em “Rio Zona Norte” um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ao lado do, também seu, “Rio 40 graus”. Um pingente foi encontrado já morto em uma artéria da Central do Brasil.

5 comentários:

Andre de Paula Eduardo disse...

Um merduncho morto em frente à Prefeitura de São Paulo...

Teia de Textos disse...

Hum, seus textos sempre são muito bons de serem lidos.
Sua companhia também sempre é muito agradável.
Mas, com sua agenda de ministro é sempre muito difícil de vê-lo.
Well, prosa muito poética.
Abraços, Sumido.

a.lago disse...

Meu querido Cláudio, infelizmente, não assisti ao filme. A imagem que você propõe faz com que tenha um certo sentimento em não tê-lo visto ainda.
Entretanto, surge uma dúvida, onde estão os outros? Os que não têm que tomar ônibus lotados, nem compõem sambas que mereçam ser gravados? Os que não fazem parte do Brasil televisinado, cinematografado, os que - raros - fazem parte dos "documentários de etnografia"? Ondo estão essas gentes do interior, sem filmes de arte, muito menos do circuito comercial?
Por mais que a trajetória cinematográfica brasileira seja digna de publicidade e estudo, ainda resta um país inteiro, além de São Paulo e Rio de Janeiro (as cidades efervescentes e laboratórios das misérias humanas) e o sertão mítico (circense ou cáustico). Onde estão esses Brasis?
O paraíso interiorano da Globo beira o ridículo, a zona rural da Record não passa de um cenário de isopor, o dinheiro do Ministério da Cultura está por aí, nalguma gaveta de Brasília rumando para contas correntes que só Deus e os contabilistas sabem.
Do que me lembro, Os Matadores buscam um Mato Grosso de mortes e tráfico, um recorte interessante para mim que já morei no MS. Amazônia em Chamas parece feito pelo Green Peace. Acho que nem preciso falar de Tainá...Enfim, cadê esse Brasil? Se 75% do RJ e SP está fora, no interior, tenho a quase certeza de que 99,99% também está.

Abraços, Goiaba.
ps. notícias suas, às vezes, caem bem para quem está tão longe desse Brasil gravado...

Thiago disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Thiago disse...

O mais interessante e que o Nelson nao comentou absolutamente nada sobre o Rio Zona Norte em sua aula magna, promovido pelo festival latino-americano de cinema, que aconteceu em Sao Paulo semana passada. Tive o prazer de lhe dar um abraco, conversar um pouco com ele, e assistir a sessao restaurada de Vidas Secas, e uma versao copiada de um VHS para DVD do Rio 40 Graus na mesma sala que o autor. Acredito que o mais interessante foi constatar que este grupo, mais tarde transformado em novistas do cinema brasileiro, tinha total consciencia do que estava realizando no cinema, principalmente quando Nelson comentou dos simposios sobre a arte no Brasil, e das conversas com Godard e Pasolini.