sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Não se afogue no mar da mediocridade

Ou: leia o livro, vista a camisa e vá ao show...

20s: A Última Gargalhada - Murnau
30s: A Regra do Jogo - Renoir
40s: As Vinhas da Ira - Ford
50s: Umberto D - Sicca
60s: 8 1/2 - Fellini
70s: A Última Sessão de Cinema - Bogdanovich
80s: Asas do Desejo - Wenders
90s: Gosto de Cereja: Kiarostami
00s: Dançando no Escuro: Trier

... um deles:

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Covardia e liberdade


"Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás." (Sérgio Sampaio)

O medroso melindra atravessar a rua. Faz de sua fobia um grito castrado de seu pulmão sem ar. E sem coragem. A máxima “Vá à luta” não se coaduna com suas proposições. Pois a luta se resume a se atirar contra o inferno de sua alma mesquinha e covarde. Não vai tentar arregaçar as almas dos sonhos de um destino que não vislumbra a cinco palmos, ou, ao máximo, daqui a cinco anos. Os arroubos do COVARDE são de tempo reduzido, como sua vaidade carcomida pelo cinismo rasteiro dos clubes odontológicos arejados do centro. Ou o clube de tênis. Emergentes de sentido, não se situariam nas “barras” limpas ou das “tijucas”. Respira o ar “desafetuoso” dos imundos aparelhos condicionados. Com a condição austera de querer ser deus, ao brincar com suas quimeras religiosas guardadas no armário junto ao vibrador e àquele poema fedorento de outrora. Em que dizia palavras sofríveis à pessoa amada julgando ser o arauto do bom gosto ordeiro dos incensos acesos depois dos cigarros de haxixe apagados.
O covarde se sente livre em desafogar seus preconceitos, com a facilidade com que desabotoa o zíper na Marquês de São Vicente à caça do demônio travestido de silicone industrial com vida, história para boi dormir. André Midani (que só fazia confusão) conhece os códigos da covardia (que se tranca na garagem alvissareira de suas existências pobres), quando empenhava Tremendão, Maluco Beleza e o velho Tim a cheirarem a cocaína nas xoxotas das meninas, perfumadas com os “rexonas” da contracorrente da sociedade do consumo – arredia ainda – dos anos Médici/Geisel/Figueiredo.
Talvez Figueiredo – o demônio rancoroso da redemocratização sem pólis -, com a fala “portuguesa” de Glauber Rocha, fosse macho suficiente para domar os incautos “aloprados” do Riocentro ao mesmo tempo em que adorava escovar cavalos mais asseados que a maioria esmagadora da população: gente covarde, embrutecida pelo sol tropical e pelas pílulas revertidas em contracheques sujos de sangue e vales-transporte encharcados de verniz “cancerígenos” das fibras fabricadas nos galpões dos estupradores de meninas: em Sorocaba, em Porto Ferreira, aqui do nosso lado. Gente balofa. Covarde. Livre para colocar sua grana classista no colo da legitimação cultural (com os jornais, formadores de opinião e artistas vomitando animosidades em programas de quinta, no convívio – supostamente idealizado – regionalizado de Jandira Fegali). Amaury Jr, de outro lado, e Jandira, também do outro lado, parecem não entender que a tal legitimação se presta aos órfãos de revoluções de araque, de contradiscursos ocos e alienados. Bourdieu avisa que há, pois, uma reordenação da ordem de classe de Marx. Mas, bingo, pelo capital simbólico, somos presos às nossas castas. Como cobaias de deuses paradisíacos no parque industrial de nossos sonhos escorregados e de nossos amores impossíveis.
Não há LIBERDADE em seu deslocamento de classe, ser um verme imbecil. Você é o que você tem. Nunca fez tanto sentido ser tão dinossáurico. Dividir as benesses da não-educação alimentar de esposas vaticinadas pelos “paulo barbosas e eli correas” da onda curta. O cantinho da saudade de um passado que não existiu. Não existe liberdade, porque não existe a clara idéia de reconhecimento de classe, como diz Graham Murdock, em ensaio primoroso. Existe, sim, covardia, servida cotidianamente. Respirada como o vick das calças meladas dos jovens cultos e resistentes dos bairros onde o apagão não solapou os geradores de milhares de tostões. Há a saída, talvez, de dividir o amor a um encontro “swingueiro” costumeiro, essa excrescência da casta covarde e medrosa. Gozar seu sêmen de baixa produtividade genética no cólon das botocudas residentes nos prédios sem interconexão ao sistema wirelles.
Olha aqui: o medroso se apropria de uma covardia ancestral. O complexo de mediocridade e/ou de inferioridade lhe faz sentir autônomo. No entanto, é um egoísta, que tem raiva e nojo de “gente feia”, vai à festa de “gente bonita”. As alcunhas da resistência do covarde- padrão é a liberdade. Mas o covarde é um egoísta. Sem o ismo do individualismo freudiano. Habermas diria tratar-se de um “zé ruela”. A liberdade de Juliete Binoche, na piscina azul do grande mestre polonês: compor uma elegia ou sufocar-se à entrega do amor que não ama.
Podia esperar um caminho mais feliz, mais carnal: ela; podia esperar um sopro mais digno e humano: eles. Eles, os covardes. Eles, os justos liberais da concorrência vazia de suas existências sem sabor. Quero vê-los queimarem na vala comum de suas liberdades condenadores da “ditadura” cubana. Caetano propôs pensarem no Haiti, enquanto discutissem o bloqueio democrata-republicano-estadunidense (covarde, no mais). Talvez haja outros caminhos. Mas são iguais àqueles evidenciados nas lojas de departamento de nossos corações inebriados pelas fumaças assépticas das drogadições e das aspirações vertiginosas das “caretices” e “maluquices” domadas.
A saudade de um tempo que faz tempo acabou. Referências de um tempo em que a concordância com o abjeto era mais vigiada. Enquanto patrulhas empreendem sua burrice cândida, os hypados das novas ordens se sentem ubíquos. Assim, os ignorantes (o gado ancestral) se delicia com a mensagem aberta das TVs concessionadas no arrastão do fisiologismo legislativo. Nas TVs por assinatura, os enlatados cumprem o serviço de nos apresentar o próximo fetiche fóbico. Mesmo nas sátiras, a dor se aloja.
Como um câncer. A dor se aloja. Pois não se sabe o caminho oposto e nostálgico da burrice histórica, da ignorância momentânea. E da estupidez eterna. Estúpidos abutres de minha inteligência. Vossa inteligência admoestada pelos elementos da ordem preestabelecida das coisas: “é, porque é assim”, “uma carreira é que me espera”. Fala em dinheiro e não dá bola para as estrelas cintilantes. Não consegue ver as estrelas, presos que estão nos trabalhos que mata. Máquinas desejantes da porra, não é mesmo senhor Deleuze?
O pesadelo do justo sono dos justos. O pesadelo do covarde é saber acertadamente o seu despreparo. Não sabe a diferença entre um lugar e outro. Não sabe o chão que pisa. Pensa, pelos pouquíssimos guias que leu, que sua vontade é essencial para o rumo das pessoas com quem dialoga. O covarde é fraco. Como diria os mais jovens que eu: é um pulha.
Quando o sol se põe, o covarde reza para encontrar um atalho ao seu esconderijo. Infértil e rasteiro quanto seu salário de merda. Seus olhos de merda. Seu carro – trocado ano a ano - de merda. Haja merda para o suflê de bosta com morango. Mas sonha em achar pessoas mais interessantes que os seus. Nunca vai achar. Toma o refrigerante e a cerveja aguados do bar meia-luz, das quintas e terças à noite. Seu celular capta a beleza do jovem na praia e na faculdade dos dejetos fecais. Definitivamente, haverá de ter outro caminho. Um segundo caminho. Um novo caminho.
Mais covarde e indigno; mais livre e reacionário!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pausa


Caro(a) leitor(a): este blog entra em merecidas férias. Volta na segunda quinzena de novembro. Possivelmente revigorado! Até lá!
Enquanto isso, uma trilha sonora para "domar" os nervos!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Atentemo-nos a Lima Barreto - FINAL


"Aquela continuação da nossa vida tal e qual, como um desarranjo imperceptível, mas profundo e quase sempre insondável, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma coisa mais forte que nós, que nos guia, que nos impele e em cujas mãos somos simples joguetes. Em vários tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é alguém, alguém que vê por ele, interpreta as coisas por ele, está atrás dele, invisível!" (trecho de "Triste fim de Policarpo Quaresma")

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Fragmento de um discurso autocitatório - final


Com isso, a perplexidade do momento radiografado por João Antônio em Corpo-a-corpo é a perplexidade em torno do próprio fabrico criativo, em uma espécie de tratado ininterrupto sobre os processos de concepção e também das temáticas levantadas. A reportagem, em uma esfera jornalística, mostra-se abastecida, portanto, de um componente fratricida de luta, ou seja, a reportagem é o motor de ajuste das suas proposições. É pela perspectiva e pela perplexidade de um “ser repórter” que o jornalismo idealizado por João Antônio, em Corpo-a-corpo, passa a significar algo expandido a outras searas que não apenas a amorfa representação de quadro verificáveis e plausíveis do jornalismo contemporâneo. A desconstrução do mito da objetividade empreendida por João Antônio se vincularia ao que o jornalista Faerman chamaria de abstração e formação do repórter, ou seja: quais seriam os quinhões discursivos utilizados para a devida ordem das coisas, na construção da reportagem sob um determinado viés, obedecendo a uma determinada narratividade, vinculada a um enredo? João Antônio, à luz de uma formação própria, de uma abstração própria da realidade, propõe, em Corpo-a-corpo, um código anti-academicista, em que o idealismo de uma escrita imersiva esteja ligada às aspirações e radiografias de um universo: universo este revestido das marcas da miserabilidade social, das carências urbanas estampadas por um processo de industrialização perverso e vilipendiador da cultura prosaica. Assim, o saudosismo nas páginas de Corpo-a-corpo é também o desenho de uma “nostalgia da modernidade”, pois coloca o narrador nas instâncias mais abruptas de mudanças ocorridas: em sua projeção como escritor-jornalista-intelectual, e na cidade que o circunda. Portanto, o repórter é o narrador que deverá percorrer as reentrâncias do cenário desolador de nossos dias para empreender, com um toque “fraterno”, a explanação de nossos vícios, de nossas dores, de nossas lembranças e saudades. Para isso, é preciso subverter a ordem lógica da pauta, da redação, da angulação e edição jornalísticas, como também romper o fino tom da literatura oficial.
Assim, as pessoas retratadas em Corpo-a-corpo se transformam em personagens, não numa mera marcação categórica da técnica jornalística, mas porque são revestidas de uma “realidade” muito própria, não menos “verdadeira”. O jornalismo preconizado por João Antônio é o jornalismo das intenções propostas na própria investigação, na própria pesquisa, mas também no corpo-a-corpo intuitivo do repórter. O jornalismo é um método de trabalho, mas também é uma instância de criação estética, revestida de marcas próprias infindáveis, inesgotáveis.
A adestração da reportagem como um gênero categórico específico é um fenômeno contemporâneo, contra o qual João Antônio se rebela. A expansão dos cursos de Comunicação Social no Brasil, a partir dos anos 1970, reforça ainda mais as dualidades estampadas em alguns ideais de gênero. Parece, novamente, haver uma discussão intrínseca sobre o papel e a função do jornalista, mas também sobre o alcance dos textos jornalísticos e literários. João Antônio se choca com os códigos deontológicos da profissão, assim como se choca com a aspiração comedida de setores burgueses da intelectualidade brasileira, atrelados a um processo de legitimação corporativista. Desse modo, surgem das páginas de Corpo-a-corpo um mal estar perante as políticas editoriais, às novas configurações empresariais jornalísticas.