
"Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás." (Sérgio Sampaio)
O medroso melindra atravessar a rua. Faz de sua fobia um grito castrado de seu pulmão sem ar. E sem coragem. A máxima “Vá à luta” não se coaduna com suas proposições. Pois a luta se resume a se atirar contra o inferno de sua alma mesquinha e covarde. Não vai tentar arregaçar as almas dos sonhos de um destino que não vislumbra a cinco palmos, ou, ao máximo, daqui a cinco anos. Os arroubos do COVARDE são de tempo reduzido, como sua vaidade carcomida pelo cinismo rasteiro dos clubes odontológicos arejados do centro. Ou o clube de tênis. Emergentes de sentido, não se situariam nas “barras” limpas ou das “tijucas”. Respira o ar “desafetuoso” dos imundos aparelhos condicionados. Com a condição austera de querer ser deus, ao brincar com suas quimeras religiosas guardadas no armário junto ao vibrador e àquele poema fedorento de outrora. Em que dizia palavras sofríveis à pessoa amada julgando ser o arauto do bom gosto ordeiro dos incensos acesos depois dos cigarros de haxixe apagados.
O covarde se sente livre em desafogar seus preconceitos, com a facilidade com que desabotoa o zíper na Marquês de São Vicente à caça do demônio travestido de silicone industrial com vida, história para boi dormir. André Midani (que só fazia confusão) conhece os códigos da covardia (que se tranca na garagem alvissareira de suas existências pobres), quando empenhava Tremendão, Maluco Beleza e o velho Tim a cheirarem a cocaína nas xoxotas das meninas, perfumadas com os “rexonas” da contracorrente da sociedade do consumo – arredia ainda – dos anos Médici/Geisel/Figueiredo.
Talvez Figueiredo – o demônio rancoroso da redemocratização sem pólis -, com a fala “portuguesa” de Glauber Rocha, fosse macho suficiente para domar os incautos “aloprados” do Riocentro ao mesmo tempo em que adorava escovar cavalos mais asseados que a maioria esmagadora da população: gente covarde, embrutecida pelo sol tropical e pelas pílulas revertidas em contracheques sujos de sangue e vales-transporte encharcados de verniz “cancerígenos” das fibras fabricadas nos galpões dos estupradores de meninas: em Sorocaba, em Porto Ferreira, aqui do nosso lado. Gente balofa. Covarde. Livre para colocar sua grana classista no colo da legitimação cultural (com os jornais, formadores de opinião e artistas vomitando animosidades em programas de quinta, no convívio – supostamente idealizado – regionalizado de Jandira Fegali). Amaury Jr, de outro lado, e Jandira, também do outro lado, parecem não entender que a tal legitimação se presta aos órfãos de revoluções de araque, de contradiscursos ocos e alienados. Bourdieu avisa que há, pois, uma reordenação da ordem de classe de Marx. Mas, bingo, pelo capital simbólico, somos presos às nossas castas. Como cobaias de deuses paradisíacos no parque industrial de nossos sonhos escorregados e de nossos amores impossíveis.
Não há LIBERDADE em seu deslocamento de classe, ser um verme imbecil. Você é o que você tem. Nunca fez tanto sentido ser tão dinossáurico. Dividir as benesses da não-educação alimentar de esposas vaticinadas pelos “paulo barbosas e eli correas” da onda curta. O cantinho da saudade de um passado que não existiu. Não existe liberdade, porque não existe a clara idéia de reconhecimento de classe, como diz Graham Murdock, em ensaio primoroso. Existe, sim, covardia, servida cotidianamente. Respirada como o vick das calças meladas dos jovens cultos e resistentes dos bairros onde o apagão não solapou os geradores de milhares de tostões. Há a saída, talvez, de dividir o amor a um encontro “swingueiro” costumeiro, essa excrescência da casta covarde e medrosa. Gozar seu sêmen de baixa produtividade genética no cólon das botocudas residentes nos prédios sem interconexão ao sistema wirelles.
Olha aqui: o medroso se apropria de uma covardia ancestral. O complexo de mediocridade e/ou de inferioridade lhe faz sentir autônomo. No entanto, é um egoísta, que tem raiva e nojo de “gente feia”, vai à festa de “gente bonita”. As alcunhas da resistência do covarde- padrão é a liberdade. Mas o covarde é um egoísta. Sem o ismo do individualismo freudiano. Habermas diria tratar-se de um “zé ruela”. A liberdade de Juliete Binoche, na piscina azul do grande mestre polonês: compor uma elegia ou sufocar-se à entrega do amor que não ama.
Podia esperar um caminho mais feliz, mais carnal: ela; podia esperar um sopro mais digno e humano: eles. Eles, os covardes. Eles, os justos liberais da concorrência vazia de suas existências sem sabor. Quero vê-los queimarem na vala comum de suas liberdades condenadores da “ditadura” cubana. Caetano propôs pensarem no Haiti, enquanto discutissem o bloqueio democrata-republicano-estadunidense (covarde, no mais). Talvez haja outros caminhos. Mas são iguais àqueles evidenciados nas lojas de departamento de nossos corações inebriados pelas fumaças assépticas das drogadições e das aspirações vertiginosas das “caretices” e “maluquices” domadas.
A saudade de um tempo que faz tempo acabou. Referências de um tempo em que a concordância com o abjeto era mais vigiada. Enquanto patrulhas empreendem sua burrice cândida, os hypados das novas ordens se sentem ubíquos. Assim, os ignorantes (o gado ancestral) se delicia com a mensagem aberta das TVs concessionadas no arrastão do fisiologismo legislativo. Nas TVs por assinatura, os enlatados cumprem o serviço de nos apresentar o próximo fetiche fóbico. Mesmo nas sátiras, a dor se aloja.
Como um câncer. A dor se aloja. Pois não se sabe o caminho oposto e nostálgico da burrice histórica, da ignorância momentânea. E da estupidez eterna. Estúpidos abutres de minha inteligência. Vossa inteligência admoestada pelos elementos da ordem preestabelecida das coisas: “é, porque é assim”, “uma carreira é que me espera”. Fala em dinheiro e não dá bola para as estrelas cintilantes. Não consegue ver as estrelas, presos que estão nos trabalhos que mata. Máquinas desejantes da porra, não é mesmo senhor Deleuze?
O pesadelo do justo sono dos justos. O pesadelo do covarde é saber acertadamente o seu despreparo. Não sabe a diferença entre um lugar e outro. Não sabe o chão que pisa. Pensa, pelos pouquíssimos guias que leu, que sua vontade é essencial para o rumo das pessoas com quem dialoga. O covarde é fraco. Como diria os mais jovens que eu: é um pulha.
Quando o sol se põe, o covarde reza para encontrar um atalho ao seu esconderijo. Infértil e rasteiro quanto seu salário de merda. Seus olhos de merda. Seu carro – trocado ano a ano - de merda. Haja merda para o suflê de bosta com morango. Mas sonha em achar pessoas mais interessantes que os seus. Nunca vai achar. Toma o refrigerante e a cerveja aguados do bar meia-luz, das quintas e terças à noite. Seu celular capta a beleza do jovem na praia e na faculdade dos dejetos fecais. Definitivamente, haverá de ter outro caminho. Um segundo caminho. Um novo caminho.
Mais covarde e indigno; mais livre e reacionário!